Depois do fim

Nossa temporada terminou há quase dez dias, e desde então um silêncio profundo se abateu sobre mim. Aos poucos as urgências da vida foram tomando esse espaço, mas em algum lugar uma digestão lenta continuava a se processar.

De tudo que passou, algumas certezas: de que tivemos um processo intenso e rico em aprendizado, e graças a isso o espetáculo teve vida. E que temos muito ainda a aprender, e por consequência muito a compartilhar. Afinal, a vida de uma peça de teatro se mede pela capacidade dos atores, e por consequência do diretor, e quem dera do resto da equipe, de descobrir novas possibilidades.

Agradecemos a cada uma das pessoas que ajudou a concretizar essa obra, e principalmente ao público que veio nos visitar.

E que venham outras visitas, em outras salas, com novos desafios e provocações para nos alimentar!

Carta aos atores

Meus queridos,

Essa semana não estarei com vocês. Espero que tudo corra bem!

Estamos com uma vida tão corrida, esse teatro de guerrilha que a gente faz não é mole, rs… Mas o fato é que estamos há praticamente duas semanas sem conseguir conversar com um pouco mais de calma. E nesse tempo eu venho, é claro, amadurecendo o meu olhar sobre a cena.

Claro que as conquistas são evidentes, o domínio de vocês, inclusive na administração de dificuldades, como uma cadeira quebrada, uma gastroenterite, ou até mesmo a baixa frequência semanal do espetáculo (que bom seria ter pelo menos quatro sessões semanais…) E também a correria em que estamos todos metidos, lutando diariamente contra o dragão de cem cabeças! Enfim, vocês são meus belos guerreiros!! Já completamente donos do espetáculo, a ponto de eu me sentir agora quase um mero espectador do jogo que vocês estabelecem entre si com garra e prazer.

Sinto que meu papel agora passa a ser cada vez mais o de observador silencioso dessa engrenagem misteriosa que é o ato teatral, atento só para que ela se mantenha firme, precisa e coesa. Lembram da Anne Bogart falando da função dos neurônios espelho? Para que os neurônios da plateia sejam ativados, é preciso que os atores ativem os seus também, mas não só isso. É preciso que a expressão resultante dessa ativação seja clara e precisa, pois do contrário ela desapareceria em meio a um caos de outros gestos e signos.

E, nesse sentido, sinto um perigo muito grande na repetição, pois ela pode amortecer uma sensação que deve ser sempre renovada no teatro, a cada sessão, noite após noite. A precisão vem dessa corda esticada. Não podemos nos acostumar demais com o nosso próprio trabalho, mas como fazer isso? Como manter viva uma história, como se ela estivesse acontecendo pela primeira vez, repetindo-a diariamente? Esse é o grande desafio do teatro, e seu grande mistério!

Não que vocês estejam fazendo isso, pelo contrário. Sinto que o jogo permanece vivo, e vocês atentos a novas possibilidades que possam surgir para que essa vida se renove. E a duração reside na transformação, diz o I Ching.

Mas existe um núcleo central nessa peça que não pode ser esquecido: a relação intensa desses dois personagens com o desejo e o medo. Esse desconforto interno, ainda que disfarçado, precisa ser mantido, sempre. Ele é o motor dos personagens, de onde nascem todas as nuances, cores e modulações. Como num carro, onde não vemos o motor mas sabemos que ele é o propulsor do movimento.

Acredito firmemente que é por esse viés sutil e invisível que a plateia se conecta com esse casal, pois todos nós compartilhamos desse paradoxo, em diferentes medidas. Afinal, como saber se uma relação valerá a pena se não apostarmos absolutamente todas as nossas fichas? E não é apavorante essa perspectiva de se fundir profundamente com outro ser? E não é também profundamente irresistível?

E o teatro também não é isso? Um jogo de tudo ou nada?

Que seja tudo então. Cada vez mais, tudo!!

PS.: falando de coisas práticas, cuidado com uma certa tendência de preencher os silêncios, eles são fundamentais pra essa história. Permitam-se abrir esses abismos para depois contemplá-los com assombro!!

OS VISITANTES no site RG

Hoje foi publicada uma resenha sobre o nosso espetáculo, escrita por mim, no site RG, com o título “A arte de casar”. Depois de tantas conversas e reflexões sobre o tema da peça, pode parecer difícil falar mais alguma coisa nova.

Mas na verdade sinto que ainda temos muito a aprender com esse processo, e que esse espetáculo pode ter uma vida longa e rica, no sentido de ser compartilhado com o maior número possível de pessoas.

Que isso se concretize!

Com o imprevisto a favor

Ontem estava justamente falando da importância da rotina e à noite a cadeira de cena quebrou logo no início do espetáculo!

Nessas horas, é normal o espetáculo ficar um pouco prejudicado, porque a atenção dos atores se divide entre estar presente em cena e solucionar o problema. Por outro lado, podem surgir coisas interessantes a partir da criatividade adicional que eles precisam aplicar para lidar com uma nova situação.

Um cena da peça, por exemplo, que era feita na cadeira, ontem ficou muito melhor com os dois soltos pelo espaço, e acho até que vamos incorporar algumas novidades que surgiram a partir do imprevisto.

Afinal o teatro uma vez mais se parece com a vida: quando uma situação é inevitável, o melhor a fazer é usá-la a seu favor.

Rotina é confiança

Segunda semana de temporada. Primeira remontagem do cenário. Começamos a entrar na rotina.

Rotina normalmente é uma coisa mal vista, associada a algo que traz tédio e preguiça. Mas uma peça de teatro depende imensamente da rotina. Fazer a mesma coisa todos os dias, exatamente da mesma maneira, garante a magia do teatro. Saber que aquela cadeira estará sempre naquele lugar, que aquele som entrará com aquele volume e a luz acenderá naquela intensidade. Claro que existe o risco de a coisa ficar toda tão organizada que acaba perdendo a vitalidade. Mas esse risco aparece normalmente num estágio posterior. Agora é fundamental que todos possam confiar uns nos outros.

E é delicioso para o diretor ver cada um se apropriando de seu próprio trabalho, o espetáculo sendo azeitado, maturando com a repetição! Ao mesmo tempo em que seu olhar continua sendo fundamental para zelar pela execução da obra, pois é natural que, logo no início, surjam pequenos desajustes.

Ontem, sem a correria da semana de estreia, senti um imenso prazer em poder cuidar dos detalhes com calma, ajudar na montagem do cenário, conversar com as pessoas por um pouco mais que trinta segundos!

Pra terminar, fica uma dica: quem ainda não viu “Parem de falar mal da rotina”, concebida e interpretada por Elisa Lucinda, não deixe de ir. É daqueles espetáculos que lavam a alma! É a redenção da rotina!

Pós-parto

Estreamos! Os atores arrasaram, o jogo entre eles estava ótimo, eles têm uma cumplicidade que é fundamental pra peça. Tudo estava com o ritmo certo, cada momento da peça executado com precisão e clareza! Saímos do teatro com a sensação de termos feito o nosso melhor.

E o público de um modo geral ficou bastante entusiasmado com a peça! Amigos que tinham assistido à primeira leitura do texto na Casa da Gávea ficaram surpresos na maneira como ele ganhou vida, ficou mais quente e cheio de novos significados a partir da encenação.

Agora, passada toda a loucura, sinto que podemos fazer alguns ajustes a partir do que percebemos nessa relação do espetáculo com o público. Mas nada grave. Eu já sabia que algumas coisas só se esclareceriam pra nós através desse contato.

Pois o teatro é uma obra em processo, sempre. Para que possa se manter vivo, é preciso que esteja em permanente transformação, por mais que essas mudanças talvez fiquem cada vez mais sutis.

E não seria assim com a vida também?

Aí vão as nossas primeiras aparições na mídia.

O Globo - Segundo Caderno - 08/09/2010

Veja Rio - 08/09/2010

Veja Rio - 08/09/2010

Folha Dirigida - 08/09/2010

Veja também a página do espetáculo no Rio Show online. Você pode também dar sua opinião sobre a peça lá!

ESTREIA

Hoje é o dia mais emocionante de uma peça, o dia em que abrimos as portas para o nosso último e mais importante parceiro: o público.

Ontem tivemos um dia bastante intenso. Passamos a tarde no ensaio técnico de luz e som, que foi longo e cansativo (como sempre), mas no final conseguimos fazer um ensaio geral com tudo funcionando. Saímos exaustos do teatro, mas cheios de energia, felizes e confiantes de que podemos ter uma ótima estreia!

Em dia de estreia a gente já acorda meio diferente, com um misto de ansiedade e emoção à flor da pele. É dia de ficar na cama até tarde, descansar bastante, falar com amigos e confirmar os últimos convidados. Chegar cedo no teatro, passar uma ou outra coisa que ainda pode ser ajustada, aquecer o corpo e a voz dos atores, deixá-los tranquilos (na medida do possível) e confiantes.

E na estreia a gente chama todos os amigos, porque precisa da condescendência e do carinho deles pra aliviar nosso nervosismo. Não existe emoção igual a essa, de sentir as cortinas do teatro abrindo para um espetáculo que vai ser visto pela primeira vez!

Que os deuses do teatro nos abençoem hoje!! E que nossa casa se encha de visitas!!

Ensaio é assim

Primeiro, todos estão vibrando com o início dos trabalhos, os papos são ótimos, a preparação corporal deixa os atores meio doloridos mas felizes, o mergulho no texto é cheio de novas descobertas!

Depois de um tempo, a rotina diária começa a pesar, os exercícios físicos parecem repetitivos, começam a surgir os nós mais difíceis de desfazer e dificuldades de ordem técnica parecem embotar toda a sensibilidade.

Começa então a surgir um certo desespero, algumas cenas parecem não ter solução, os elementos não dialogam uns com os outros, tudo parece frio e sem vida. Esse é um momento delicado, pois as pessoas tendem a se estressar mais umas com as outras…

Mas, quando afinal conseguimos vencer essas pressões e dominar o espetáculo do ponto de vista técnico, naturalmente uma esperança começa a brotar, as coisas voltam a fazer sentido, resgatam-se conversas tidas no início do processo, todos voltam a se sentir felizes e confiantes!

E alguém lembra: afinal isso é apenas teatro. Mas, para que se possa dizer isso, quantas noites não foram passadas em devaneios e obsessões!

Hoje tivemos um lindo ensaio. Pela primeira vez deu pra ter um gostinho do que será o espetáculo. E parece que vai ser muito bom!

Contagem regressiva

Falta um semana pra nossa estreia.

Estamos há dias ensaiando exaustivamente o terceiro ato (que é o fim do espetáculo), e sem conseguir sair muito do lugar!

O último ato da peça é muito difícil, vertiginoso e entrecortado, as falas não oferecem um encadeamento óbvio pros atores desenvolverem uma trajetória segura, e ao mesmo tempo existe uma progressão que precisa alcançar um clímax.

Mas hoje saí do ensaio feliz e confiante, pois conseguimos passar o terceiro ato de cabo a rabo com um razoável domínio!

Então aí vai uma foto da peça, um brinde pra aguçar as curiosidades…

Créditos para o nosso grande Dalton Valério.

Mensagem do mestre Abujamra

Priscila, nossa dramaturga, quis compartilhar conosco um email que recebeu do mestre Antonio Abujamra.
Obrigado a todos os mestres! O que seria de nós sem eles?
Aí vai!

1. “Tudo é movimento irregular e contínuo, sem direção e sem objeto.” (Montaigne)
2. “Toda enfermidade pode chamar-se enfermidade da alma.” (Novalis)
3. “Ninguém encontrou, nem encontrará jamais.” (Voltaire)

Desde algum tempo, não pergunto mais sobre o sentido das palavras que só deixam tudo, como sempre, incompreensível.

Durante toda a vida estamos com pessoas que não sabem nada de nós e pretendem  continuamente saber tudo de nós, nossos parentes e amigos não sabem nada, porque nós também sabemos pouco deles.

É uma boa coisa que tenhamos sempre uma forma irônica de considerar as coisas, mesmo que seja tudo sério para nossas cabeças.

Diretor de teatro? Ator? Sempre representei uma tragédia cem por cento e  logo uma comédia e em seguida outra tragédia e logo tudo ficou uma salada sem saber se era uma comédia ou uma tragédia. Isso desconcerta os espectadores.  Aplaudem muito, depois lamentam…

Nosso estado mental é imprevisível. Somos tudo e não somos nada. Assim é o teatro.

Às vezes levantamos a cabeça e acreditamos que temos que falar a verdade ou a aparente verdade. E então abaixamos a cabeça. Isso é tudo.

O que na televisão é mentira, não é tanta mentira como foi o grupo escolar, o ginásio, a faculdade, porque tudo o que aprendemos era totalmente inútil. Com meus companheiros na televisão, nenhuma dificuldade. Somos amigos rapidamente.

Também aqui, como em todas as partes onde há seres humanos, há esse espaço perigoso entre simpatia e antipatia e temos que nos atrever a viver assim.

O  homem que não ama a liberdade, tudo que o cerca é mentira, não sabe o que fazer com a liberdade e se dedica a verificar a roupa que vai vestir, buscar fotografias, documentos, cartas. Não percebem que estão se torturando, achando que a sua vida é a sua salvação. Coitados.

A felicidade está em todas as coisas e em nenhuma.

Como a infelicidade. Para respondermos à pergunta sobre a felicidade, temos que nos sujar com nossa própria sujeira e ter mãos ainda ainda mais sujas.

Terminemos: o homem é um animal que quer existir.