Meus queridos,
Essa semana não estarei com vocês. Espero que tudo corra bem!
Estamos com uma vida tão corrida, esse teatro de guerrilha que a gente faz não é mole, rs… Mas o fato é que estamos há praticamente duas semanas sem conseguir conversar com um pouco mais de calma. E nesse tempo eu venho, é claro, amadurecendo o meu olhar sobre a cena.
Claro que as conquistas são evidentes, o domínio de vocês, inclusive na administração de dificuldades, como uma cadeira quebrada, uma gastroenterite, ou até mesmo a baixa frequência semanal do espetáculo (que bom seria ter pelo menos quatro sessões semanais…) E também a correria em que estamos todos metidos, lutando diariamente contra o dragão de cem cabeças! Enfim, vocês são meus belos guerreiros!! Já completamente donos do espetáculo, a ponto de eu me sentir agora quase um mero espectador do jogo que vocês estabelecem entre si com garra e prazer.
Sinto que meu papel agora passa a ser cada vez mais o de observador silencioso dessa engrenagem misteriosa que é o ato teatral, atento só para que ela se mantenha firme, precisa e coesa. Lembram da Anne Bogart falando da função dos neurônios espelho? Para que os neurônios da plateia sejam ativados, é preciso que os atores ativem os seus também, mas não só isso. É preciso que a expressão resultante dessa ativação seja clara e precisa, pois do contrário ela desapareceria em meio a um caos de outros gestos e signos.
E, nesse sentido, sinto um perigo muito grande na repetição, pois ela pode amortecer uma sensação que deve ser sempre renovada no teatro, a cada sessão, noite após noite. A precisão vem dessa corda esticada. Não podemos nos acostumar demais com o nosso próprio trabalho, mas como fazer isso? Como manter viva uma história, como se ela estivesse acontecendo pela primeira vez, repetindo-a diariamente? Esse é o grande desafio do teatro, e seu grande mistério!
Não que vocês estejam fazendo isso, pelo contrário. Sinto que o jogo permanece vivo, e vocês atentos a novas possibilidades que possam surgir para que essa vida se renove. E a duração reside na transformação, diz o I Ching.
Mas existe um núcleo central nessa peça que não pode ser esquecido: a relação intensa desses dois personagens com o desejo e o medo. Esse desconforto interno, ainda que disfarçado, precisa ser mantido, sempre. Ele é o motor dos personagens, de onde nascem todas as nuances, cores e modulações. Como num carro, onde não vemos o motor mas sabemos que ele é o propulsor do movimento.
Acredito firmemente que é por esse viés sutil e invisível que a plateia se conecta com esse casal, pois todos nós compartilhamos desse paradoxo, em diferentes medidas. Afinal, como saber se uma relação valerá a pena se não apostarmos absolutamente todas as nossas fichas? E não é apavorante essa perspectiva de se fundir profundamente com outro ser? E não é também profundamente irresistível?
E o teatro também não é isso? Um jogo de tudo ou nada?
Que seja tudo então. Cada vez mais, tudo!!
PS.: falando de coisas práticas, cuidado com uma certa tendência de preencher os silêncios, eles são fundamentais pra essa história. Permitam-se abrir esses abismos para depois contemplá-los com assombro!!